2.26.2006

Sábado Fútil

Depois de uma semana a trabalhar a sério eis um merecido Sábado Fútil que, em Xangai é como quem diz, uma tarde na Nanjing Lu- 4 Km de compras, entretenimento e produtos ilegais.
Por isso começámos suavemente com a tradicional entrada e saída em lojas. Múltiplas. Entre mercearias que vendiam caras de porco e lojas de pérolas e taças de chás.
Não sei bem como, pelo meio fomos conduzidos por umas ruelas apertadas e encolhidas onde só cabe uma pessoa em largura, com o vendedor sempre a olhar para trás e a prometer-nos dvd's a bom preço. Chegámos ao dito buraco de 6 metros quadrados(o que no filme "Cidade de Deus" é chamado de «boca») completamente repleto de malas Louis Vitton, canetas Mont Blanc, ténis Versace, relógios de todas as marcas e os ditos dvd's. Quando entrámos fecharam a porta atrás de nós e raparámos logo numa tv que vigiava a entrada, e eu sempre a pensar "É desta que fico sem rins!". Mas ainda não foi. Negociámos a 0,70€ cada dvd e voltámos para a confusão da Nanjing.
Mais voltas para dentro e fora de lojas e ficámos estafados. Eis senão quando nos lembrámos de fazer umas massagens. Uns a pés, eu ao corpo todo. Meninos, posso-vos dizer que voltei uma mulher nova depois de estar uma hora numa cama com um buraco para pôr a cara e, se necessário- que não foi, é bom esclarecer- babar!
(Depois de jantar tivemos direito a mais uma noitada daquelas. A começar por uma disco potente, a Fabrik, e uma festa particular na casa de um argentino e um brasileiro cheia de pessoas de todo o mundo. Mas isso já dava outro post!).

2.23.2006

No spitting

Este sinal está em todas as estações de metro. Mas devia estar em cada cm de Shanghai. Cuspir é um acto social. E limpar a garganta deve ser sinal de higiene. Porque toda a gente gosta de mostrar que é muito limpinha.
Até a D.Lurdes cá do sítio que nos dá um jeitinho (muito pequenino) à casa, faz questão de acordar o pessoal ao som da sua higiene privada.Mas não lança nada.É fina.
Ele é no atelier, no supermercado. Até já vimos um civil a treinar a bela da experiência futebolistica habilidosa de tapar uma narina e força no pulmão.
Ao início estava disposta a prestar a minha indignação mas cedo desisti. Eles não percebiam a mensagem das sobrancelhas franzidas e da boca aberta. Depois passei a fase de virar a cara. Mas quando virava a cara não via o projectil...
Agora ignoro, e até já sinto uma vontadezinha...
Estou a gozar pai!

2.21.2006

Latinos Vs Ocidentais

Nao e so o ambiente cultural que faz desta aventura de quase um ano um abrir de olhos. Ao mesmo tempo que passamos a ver tudo a distancia, apercebemo-nos agora da vida com uma enorme lupa.
Ontem estava a trabalhar concentrada no monitor depois de horas a investir num photoshop muito trabalhoso, quando ouco alguem a fungar. Procuro nao me desconcentrar ate porque com as temperaturas deste terra humida o que mais ha sao arquitectos a espirrar o dia todo.
Passado um bocado reparo que, o chines no estirador na minha diagonal, esta a chorar muito baixinho e com a cabeca muito curvada. Nao falou com ninguem, nem ninguem mais reparou.
Dar nas vistas na China e sinal de ma educacao. Fala-se baixinho e mostra-se humildade em tudo. E-se discreto. E guardam-se os sentimentos.
Foi um estalo ca dentro.

2.18.2006

Muito Bom

A noite estava para ser calminha. Mas não foi. Eu já tinha dito que a italianada do meu atelier gostava de ramboia, e ontem provou-se.
Depois de um jantarzinho a lembrar Portugal, que a nossa Iána do coração fez questão de confecionar, estava tudo morto. Mas um convite para uma saída ao famoso Bar Rouge fez-nos pôr a andar.
Primeiro o táxi. A Márcia italiana mandou-me um sms com a morada em chinês. Ora esta gente ainda tem alguma dificuldade em perceber a nossa pronúncia. Como éramos seis tivemos que chamar dois táxis. Agora imaginem a cena. Dois táxis, seis pessoas, eles não nos percebiam, nós não os percebíamos e todos os táxistas curiosos que passavam paravam a entupir a estrada. Eu ligava para todos os italianos no destino, mas estava uma barulheira tal que era impossível.
Nós dizíamos Waitan Lu e eles repetiam qualquer coisa que não percebíamos. A certa altura arriscámos e fomos mesmo lá dar.
A meio da viagem recebo um telefonema da mongol que trabalha comigo a dizer "quando chegares diz que estás na mesa do Rodolfo". O Rodolfo é um arquitecto patusco que trabalha no meu atelier. Durante o dia não fala muito, mas já me tinham dito "tens que ir a uma festa para o conheceres". E tinham razão. Entrada ao lado da Cartier,selecta e congestionada no piso O, demos a deixa, os porteiros muito educados confirmaram a informação e fomos todos para o sétimo andar.
Meus amigos, o Bar Rouge é outro mundo. Acendem-se tochas, passam garrafas king size de Moet &Chandon em todas as direcções, há imensas salinhas privadas, pessoas a dançar dentro de micro gaiolas,um mega terraço com uma vista extraordinária para os arranha-céus do outro lado do rio e muito bom ambiente. Todos dançam com todos. Chineses é que não. Tudo ocidentais vestidos desde fato de treino rap até fatinho e gravata.
Como diria o João cá de casa...Muito Bom

2.17.2006

Finalmente ligada ao mundo

Finalmente temos net em casa. Depois de uma semana a tentar publicar posts no Starbucks aqui do bairro, espero que este chegue em condições.
Há tanta coisa para contar que finalmente tive a noção que será impossível escrever cada novidade que estou a viver. São os cheiros, os ambientes, a curiosidade dos chineses. Foi o contracto da casa,a ida ao IKEA (com direito a perder a carteira, e a ser-me devolvida com tudo lá dentro, uma ode à honestidade), a excitação da entrada em casa, do primeiro dia de trabalho, o jantar de atelier a que fui ontem num restaurante árabe(surreal, acabamos 25- a incluir o motorista- a dançar a dança do ventre, a começar por il capo!), tomar banho com a luz dos néons a 30 andares abaixo... Há mesmo coisas que não vou esquecer nunca. É sem dúvida um choque, e é impossível passar ao lado dele.
Um deles é ir ao Carrefour. Sim, a imagem acima não é de um supermercado qualquer.E sim, são sapos vivos a 1,68€ o quilo. E havia tartarugas, peixes vivos de todas as cores...you name it! E tudo vivinho da silva. Mais uma super secção só de arroz de todos os tipos, e o azeite a 10€. E nem um bolycaozinho...e eu cheia de vontade!Também tenho saudades do nestum de arroz, e de jaquinzinhos com arroz de tomate. Continuo a dizer que a comida foi o maior choque. E continua a ser.

2.11.2006

Os transportes

Esqueçam a noção de trânsito de Lisboa. Esqueçam o nosso parque automóvel. Esqueçam os sinais de trânsito.Esqueçam as prioridades e regras de trânsito. Esqueçam os acidentes.Não esqueçam a buzina. Juntem milhares de bicicletas e scotters. E muita gente, muita gente a atravessar em todas as direcções.
Então provavelmente estão em Xangai.
E não é que ninguém bate?
Agora os táxis.Meus amigos, os táxis de Xangai davam um curso superior.
Então reza assim. Entramos no táxi e dizemos para onde queremos ir. Eles invariavelmente não percebem. Então acontece uma de duas coisas: ou telefonamos para o chinês com quem nos vamos encontrar e ele diz a morada ao taxista, ou apresentamos um cartão onde vem escrita a morada em caracteres. Posto isto, liga o taxímetro e começa em 1o RMB (Remin bi=dinheiro do povo, comunistas e tal) que corresponde a 1 Euro. Andamos Km e Km e o taxímetro não mexe. Dentro do táxi há publicidade por todos os lados, e um ecrã minúsculo em frente ao lugar do morto sempre com anúncios. E lá chegamos ao destino. Preço final:12 RMB. E ainda podemos não pagar caso: o taxista não nos tiver cumprimentado à entrada, tenha fumado, cuspido para o chão, não tenha posto a música e ar condicionado como nós queremos ou de alguma forma não nos tenha agradado.

2.09.2006

A Casa, A Comida

Xangai é pró grande. Tem muito arranha-céus, com muita casa para alugar. Acontece porém, que estes chinocas pouco ou nada se reproduzem, e vai daí que encontrar casas com mais de 3 quartos é muito difícil. Ora nós queremos viver os quatro. Eles acham muito estranho, tanta gente numa casa e riem-se muito.Não sei o que lhes passará pela cabeça, nem desconfio.
Queremos boas condições, e bom preço, e numa certa zona,e metro à porta e entrar até Sábado.
Está bom de ver que a coisa não está fácil.
A primeira casa que vimos, era uma espécie de "casa de amor pago" Star Trek. As portas eram de correr redondas, com uma cascata na entrada e cama em forma de coração.Num 21º andar.
As outras têm vindo a melhorar.
Na maior parte delas temos que tirar os sapatos da rua e calçar as pantufinhas da casa. E acreditem que há para todos os gostos.
Corremos mais de 10 imobiliárias, na grande maioria não falam inglês. Oferecem-nos sempre um copo de água quente. E nós agradecemos porque somos muito educados- que somos-mas ainda não percebemos para que serve realmente, a não ser aquecer as mãos (que isto está um frio que congela a pontinha do nariz!).
Querem sempre que assinemos uns papéis cheios de caracteres,mas temos sido categóricos a recusar assinar seja o que fôr. Eles riem-se e a coisa fica por ali.
Quanto à comida só vos digo:
Hoje que o João chegou, decidimos comer num restaurante chique a valer, e passo a relatar partes do menu:
- Raíz de Lotus com açúcar
- Pés de galinha com língua de pato, em vapor
- Alforreca envolta em algas
- Tripa de pato marinada
- Cobra frita com sal e pimenta
Optámos pela última.
Tenho que fazer um post dedicado só aos ovos podres que eles adoram, e que vendem nas tabacarias, bem quentinhos!

2.07.2006

Xangai é minha

Talvez por estar muito feliz e com muito sono, tudo me pareça um sonho. Estas paredes dançam para cima de mim enquanto escrevo. Eu sabia que os comprimidos para dormir teriam efeitos rectroactivos. Ei-los.
A cantar baixinho como o louco da praça, no Cinema Paradíso:"Xangai é minha, Xangai é minha"
A minha cama. Já.

2.04.2006

Identidade

Quando vivia em Espanha conheci um chinês chamado Carlos. E depois outro, e depois mais outro...Tinham decidido ter um nome latino, num país de casanovas e castalholas.
E quando estava a tirar o meu curso de mandarim, a minha professora era Jessica. Na verdade era Qí (Fabulosa), mas seria demasiado complicado explicar isso a todas as pessoas.
No Oriente é tido como educado e sinal de adaptação natural à cultura, a escolha de um nome local. E eu ando à procura do meu.
Ao início parece fácil, porque há muito por onde escolher. Por exemplo, "Bo" quer dizer Preciosa e"Fang" quer dizer Cheirosa. Mas eu não queria ser mais um dos sete anões. Queria ser eu na versão Xangai. E aí é que tudo se torna mais complicado. Porque tenho que procurar na minha identidade, algo que realmente me caracterize.
E agora caracterizar-me e condensar isso numa palavra? É muito complicado. Por isso decidi ir pelo som. E cheguei a 3 nomes que gosto...É aqui que preciso da vossa ajuda. Qual vos parece melhor?
1) Ling Ling- parece de campainha, mas era o nome da menina de um filme chinês que adorei
2) Jin- também pela bebida,mas porque dito por eles parece o som do cristal
3) Xiu- parece que é para mandar calar, mas fica muito bonito no segundo tom

2.02.2006

Come on, hold my hand

Ainda não me parece possível que Segunda-Feira não vá para o atelier trabalhar, mas sim para a China. Três horas até Londres, outras doze até Xangai. Com o Diogo para dividir o início da aventura: viagem, hotel, procura de casa. Até chegarem os demais. A minha casa está virada ao contrário, e ainda nem comecei a arrumar as malas. Comprei a farmácia inteira, na esperança que não me fiquem com o Aspegic na fronteira. Talvez vá carregada com livros a mais, mas sempre me disseram que o saber não ocupa lugar, e espero que a British Airways percebe a ideia. Dois comprimidinhos maravilha para me pôr K.O. e espero só acordar em Xangai, possivelmente ainda a arrastar a fala. Só assim será humanamente possível transportarem-me de avião tanto tempo. Parece que agora é mesmo a sério...